Pessoas LGBTQ+ na tecnologia: da criação de apps à disseminação de magia — parte I
Eirini-Eleni Papadopoulou
29 de junho de 2020
0 minutos de leituraQue mês foi esse!
Junho de 2020 foi revolucionário para muitas pessoas, com ativistas e apoiadores se unindo em resposta a vários acontecimentos transformadores. Neste ano, o Orgulho está um pouco diferente. Muito diferente.
As paradas são todas virtuais, as comemorações têm capacidade limitada e, embora tenhamos visto avanços para a comunidade LGBTQIA+, as mortes recentes e os protestos só reforçaram que muitas pessoas ainda lutam por justiça e igualdade. Agora, mais do que nunca, é hora de celebrar quem somos e agir como aliados — para algumas pessoas, isso significa aprender, fazer ativismo, votar, desaprender ou participar de conversas difíceis. Na Snyk, estamos celebrando o Mês do Orgulho de uma forma que apoia todas as pessoas da Snyk e nossas comunidades. Saiba mais sobre nossas iniciativas aqui e aqui.
Como parte das comemorações do Mês do Orgulho, conversamos com pessoas e organizações do setor de tecnologia sobre tudo o que envolve o Orgulho — de suas experiências como pessoas LGBTQ+ na área de tecnologia a conselhos sinceros para quem está começando no setor. Esta série de entrevistas em nosso blog vai fazer você sorrir e se inspirar!
E, sem mais demora, vamos liberar a magia!
Conheça nossos participantes

Avery (ela/dela) -Avery é engenheira de sistemas de informação na Snyk. Sua experiência profissional combina TI e segurança, e ela já trabalhou em diferentes tipos de empresa, o que lhe trouxe muitas perspectivas.

Brendan (ele/dele) - Brendan faz parte da equipe de vendas da Snyk no escritório de Boston. Se você perguntasse aos amigos de Brendan sobre ele, eles destacariam seu senso de humor e seu jeito descontraído. Ele costuma levar qualquer situação na esportiva e tenta mostrar que é tranquilo, para que as pessoas se sintam à vontade para conversar sobre o que estiverem pensando. No tempo livre, gosta de cozinhar, estar com amigos e familiares, fazer trilhas, descobrir músicas novas e, de modo geral, fazer coisas que o ajudem a crescer (ler, manter-se ativo, fazer cursos on-line).

Josh (ele/dele) - Josh é engenheiro principal na Snyk. As experiências de vida fizeram dele uma pessoa muito aberta! Ele já viveu a experiência de ser diferente, de não se encaixar. Assumiu-se gay aos 13 anos, em uma escola só para meninos. Como você pode imaginar, não foi fácil; essa experiência o marcou e ajudou a moldar quem ele é.

Chris -Chris Howard é consultor na EPAM Systems e trabalha com grandes organizações do setor privado para realizar projetos de transformação digital e propor novas ideias e abordagens para resolver problemas nessas organizações. Ele é assumidamente gay e costuma compartilhar suas experiências no setor de tecnologia do Reino Unido como integrante da comunidade LGBT+. Chris ocupa vários cargos, entre eles o de líder do Intertech LGBT+ Diversity Forum e o de responsável pela comunicação do Media Office do British Army LGBT+ Forum. Também é presidente do conselho de governadores da New Wave Federation, um grupo de escolas Apple Distinguished que colocam a tecnologia no centro do currículo e das experiências de aprendizagem.
Sua orientação sexual e/ou identidade de gênero teve algum impacto positivo ou negativo na sua carreira?
Avery: Sim, dos dois tipos. Quando me assumi como mulher trans, em 2012, enfrentei alguns desafios, tanto por ser uma mulher trans recém-assumida quanto porque minha empresa só havia tido outra pessoa trans se assumindo no trabalho em mais de 20 anos de funcionamento. No entanto, conforme fui ficando mais velha e mais confiante, passei a me sentir mais à vontade para ser assumida e ter orgulho de quem sou, além de compartilhar minhas experiências com outras pessoas.
Brendan: Pessoalmente, não percebi muito impacto da minha sexualidade na minha carreira, simplesmente porque tenho pouca experiência no mercado de trabalho. Antes da Snyk, trabalhei em várias empresas de diferentes áreas (RH, finanças e vendas). Decidi manter em segredo o fato de ser gay, com medo de que isso prejudicasse minha imagem profissional. Não via muitas pessoas nos meus antigos cargos falando sobre sua orientação sexual e já tinha lido que, antigamente, isso poderia atrapalhar oportunidades de crescimento. Assumi-me oficialmente em 2019, pouco depois de começar meu primeiro emprego após a faculdade. Durante esse período, só recebi apoio, mas também me senti como o “gay de estimação”, pois era a única pessoa com essa característica tão marcante. Fico muito feliz em ver que a Snyk tem um forte senso de união e valoriza a importância de permitir que as pessoas mostrem quem realmente são, sem medo de represálias. Comecei minha carreira aqui quando o trabalho remoto virou o padrão e, desde então, trabalho totalmente a distância. A energia de todas as pessoas com quem interagi confirmou minha decisão de falar abertamente sobre minha sexualidade com meus colegas. Nunca me senti tão à vontade para ser 100% eu mesmo em um ambiente de trabalho quanto desde que entrei na Snyk.
Josh: Penso bastante nisso e imagino que tenha ajudado e atrapalhado na mesma medida. Para ser sincero, não senti um impacto real em nenhum sentido. No que diz respeito à minha educação, duvido que o fato de ser gay tenha tido um papel importante, embora tenha sido em parte o que me atraiu para a Universidade de Brighton! Posso dizer com toda sinceridade que nunca senti que tivesse sido rejeitado em uma entrevista por causa da minha orientação sexual ou por ser relativamente afeminado. Gosto de pensar nas entrevistas como um teste decisivo. Se uma entrevista não dá certo, provavelmente é melhor assim, pois a empresa precisa me aceitar como sou. Tentar fingir ser alguém que você não é cansa e prejudica a saúde mental, por isso é importante encontrar lugares para trabalhar onde possamos nos sentir bem na própria pele. Meu conselho para outras pessoas é que sejam elas mesmas nas entrevistas. Assim, espero que acabem trabalhando nos ambientes mais abertos e diversos.
Como você foi parar na área de tecnologia e o que mais gosta nesse setor?
Avery: Foi puro acaso — meu primeiro emprego depois da faculdade foi como recepcionista, mas eu também consertava os computadores do escritório e, com o tempo, consegui meu primeiro trabalho em TI ali mesmo. Adoro como a tecnologia pode despertar tanta paixão em quem trabalha no setor. Não há nada de que eu goste mais do que ouvir as pessoas falando sobre aquilo que realmente as entusiasma.
Brendan: Quando me formei na faculdade, sabia que queria seguir carreira em vendas, principalmente porque queria ter controle sobre quanto poderia ganhar. Gosto da ideia de saber que o trabalho que você faz vai trazer resultados. Como não tinha experiência em vendas na época, comecei minha trajetória em uma empresa com um programa reconhecido de treinamento em gestão e vendas, para construir uma base sólida. Acabei me interessando pela Snyk por causa do produto. Como já mencionei, estou sempre pesquisando para me desenvolver, e open source e contêineres eram temas que me atraíam bastante. Descobri a Snyk antes de saber que a empresa tinha aberto um escritório na minha cidade. Depois de pesquisar melhor, me candidatei e tive a oportunidade da minha vida: vender um produto em que realmente acredito, trabalhar com pessoas incríveis e fazer parte de algo de que posso me orgulhar quando alguém pergunta: “Onde você trabalha?”.
Josh: No fundo, sou programador, então, no começo, via programação mais como um hobby do que como uma carreira. Quando era criança, fazia isso no meu quarto, principalmente criando jogos e sites sem nenhuma finalidade real. Na universidade, porém, estudei arquitetura. Portanto, não estava buscando inicialmente trabalhar no setor de tecnologia. Acho que, na época em que estudei, muita gente escolheu outros cursos na universidade, pois ainda não havia tantos cursos excelentes de programação e as pessoas continuavam optando por áreas mais tradicionais. Por isso, demorei um pouco para perceber que engenharia, programação, desenvolvimento, hacking e produtos digitais eram minha vocação. Ainda adoro arquitetura (e mexo com isso em casa!), mas gosto da rapidez com que a programação permite ver os resultados.
Na área de tecnologia, não há opiniões muito fortes sobre orientação sexual, pelo menos do meu ponto de vista. Imagino que em outros setores possa haver um viés heterossexual mais acentuado, em parte por medo (homofobia) e em parte por tradição (resistência à mudança). Talvez isso se explique simplesmente pela idade do nosso setor, que é relativamente jovem, ou talvez exista uma explicação mais profunda. Acho que essa aceitação se deve, em grande parte, ao fato de que o setor de tecnologia atrai uma ampla variedade de pessoas, muitas das quais se consideram excluídas por não se encaixarem em algum padrão. Muitas delas não se considerariam integrantes da comunidade LGBTQ+, mas se sentem excluídas por outros aspectos de sua identidade. Adoro isso no meu setor, porque representa uma gama de diferenças muito mais ampla do que costumamos incluir sob o guarda-chuva LGBTQ+. Quanto mais diversidade, melhor — e aprendo muito com as pessoas ao meu redor.
Você participa ativamente de comunidades LGBTQ+ na área de tecnologia? Se sim, conte alguns exemplos da magia que essas comunidades criam!
Avery: Sim, participo de alguns grupos de conversa. Percebi que pessoas que compartilham uma parte da própria identidade conseguem se identificar umas com as outras em muitos aspectos, enquanto as diferentes experiências de cada uma trazem ótimas perspectivas sobre outras questões.
Josh: Na verdade, gostaria de participar mais. Sou integrante do Intertech, que organiza ótimos eventos sobre pessoas LGBTQ+ na área de tecnologia. Por exemplo, pude ouvir Matthew Todd, ex-editor da revista Attitude, dramaturgo e jornalista premiado várias vezes, falar sobre as origens do Orgulho, incluindo os protestos de Stonewall. Também graças ao Intertech, participei da parada do Orgulho de Londres, uma experiência incrível!
Pessoas LGBTQ+ costumam enfrentar dificuldades significativas — em comparação com outros grupos da população — na hora de escolher uma carreira, principalmente por causa de situações familiares desfavoráveis. Que conselhos você daria a pessoas LGBTQ+ jovens (ou não tão jovens!) que querem construir uma carreira na área de tecnologia?
Avery: Sinceramente? Se jogue. Não tenha medo de errar nem de fazer perguntas — é assim que se aprende. Se você é apaixonado por tecnologia, siga essa paixão. Procure pessoas em situações parecidas e construa a melhor rede de apoio possível. E, quando estiver em uma posição que permita ajudar outras pessoas, ajude da melhor forma que puder.
Brendan: Pessoalmente, acho que você precisa se sentir bem consigo mesmo. Cerque-se de pessoas que amam você por quem você é, e nada mais vai importar no fim das contas. Só me assumi para meus amigos na faculdade, depois de afastar as pessoas negativas da minha vida e me envolver em uma comunidade na qual não havia consequências por “sair do armário”. Cada pessoa tem seu próprio caminho, então não existe uma fórmula única. Mas acredito que as pessoas com quem você convive têm grande influência na sua autoconfiança. Dito isso, estou muito feliz por fazer parte da Snyk e da cultura incrível que a empresa construiu — uma cultura com pessoas de diferentes origens e personalidades.
Josh: Embora não tenha sido fácil me assumir quando era mais jovem, tive muita sorte de contar com o apoio dos meus pais quando contei que sou gay. No entanto, como acontece com muitos pais, a visão deles sobre o setor de tecnologia estava um pouco desatualizada. Lembro que me falaram sobre o estouro da bolha pontocom e sobre como eu poderia ter dificuldade para ganhar a vida nesse setor. Embora a maioria dos nossos pais queira o melhor para nós, a experiência deles tem limites e não permite prever o nosso futuro. Há coisas pelas quais eles não passaram e com as quais não conseguem se identificar. E tudo bem. Mas você precisa descobrir o que é certo para a sua vida. Isso não significa que você tenha que seguir sozinho quando decidir começar essa jornada. Cerque-se de amigos que apoiam você e não tenha medo de contar com o apoio e a empatia deles enquanto encontra seu caminho na vida.
Chris (Intertech): O setor de tecnologia oferece uma grande vantagem na hora de considerar opções de carreira: muitas das informações necessárias para tomar a decisão certa estão disponíveis a um clique de distância. Pesquisar é essencial para encontrar a função e a organização certas. Com tantas iniciativas incríveis, como Student Pride, Stonewall Work Equality Index e mygWork, que anuncia vagas apenas de organizações diversas, você pode sair na frente e encontrar um lugar onde possa crescer e se sentir acolhido. Começar uma carreira em tecnologia também traz desafios, é claro. Como o setor muda tão rápido, muitas vezes pode ser difícil imaginar como se encaixar em equipes ou organizações já estabelecidas. Procure referências entre as pessoas que aparecem nos materiais de recrutamento ou de marketing. Se encontrar alguém “igual a você”, pode confiar que se adaptar não será um problema. E, claro, entre em contato conosco: estamos sempre à disposição para conectar quem quer começar uma nova carreira ou avançar na atual a uma das organizações incríveis com as quais trabalhamos.
Esperamos que você tenha gostado de ler a primeira parte deste bate-papo! Não deixe de conferir a segunda parte aqui.
Fazendo a mágica acontecer no IntertechLGBT+ Diversity Forum
O Intertech LGBT+ Diversity Forum é uma organização sem fins lucrativos para pessoas LGBT+ e seus aliados em todo o mundo. Com muita paixão e dedicação, trabalha para promover a diversidade e a inclusão LGBT+ no setor de tecnologia do Reino Unido, beneficiando as pessoas, as organizações que representam e todo o setor — e faz isso desde 2012!
Os três principais focos da organização são: apoiar o desenvolvimento profissional de pessoas LGBT+ por meio de eventos e oportunidades de networking, para que talentos diversos possam interagir, trocar contatos e socializar; ajudar organizações a fortalecer e expandir suas redes e grupos de funcionários LGBT+, compartilhando boas práticas e promovendo workshops e conferências; e manter-se conectada ao setor e ao mundo da tecnologia, que está sempre mudando, para entender como pessoas e organizações devem se transformar e se adaptar para construir um futuro positivo para todos que trabalham com tecnologia.
A organização é conhecida por seus mais de 3.000 membros por trabalhar com algumas das melhores organizações e pessoas inovadoras do setor de tecnologia. Seus eventos sempre colocam a tecnologia em primeiro lugar e a diversidade em segundo. Seja reunindo 250 pessoas para uma noite na sede da Deliveroo, em Londres, para conhecer as novidades das equipes de arquitetura e engenharia, ou lotando auditórios no Facebook, na Sainsbury’s, no Goldman Sachs e em muitos outros lugares, com analistas, desenvolvedores e líderes diversos e entre os mais talentosos do setor compartilhando suas histórias, a programação está sempre cheia.
Mesmo quando não estão realizando eventos, os integrantes da equipe do Intertech, todos voluntários incríveis, colaboram com empresas em iniciativas internas de diversidade. Participam de painéis como convidados para compartilhar um pouco do que acontece no universo da diversidade, ajudam a organizar cursos para líderes de redes e aprimorar grupos de recursos para funcionários e até palestram em conferências, como a London Tech Week, para milhares de pessoas.
Fique à vontade para falar conosco nas redes sociais (LinkedIn, Facebook, Twitter, Instagram) para compartilhar suas dúvidas, preocupações e, claro, seu talento!
